Rio de águas paradas


Rio de águas paradas


O Porto perde importância de dia para dia. O caminho da irrelevância política, económica e de representatividade geral, que tanto o embaça não tem encontrado resistências dignas de registo por parte dos políticos locais. Muitos crêem que a culpa é da obsessiva centralização que nos tem assolado e que só encontra par na lógica governativa da Grécia. Na verdade, Portugal e aquele país mediterrânico assemelham-se, terrivelmente, pelo receio obsessivo de qualquer reforma efectivamente descentralizadora e pelos maus resultados dos seus governos - a crise em que ambos se afundam faz desta similitude muito mais do que uma mera coincidência.

Mas esta explicação é insuficiente para percebermos um crepúsculo tamanho. O que distinguia o antigo espírito do Porto era a auto-suficiência. O Porto sempre se bastou a si próprio. E conseguiu recuperar das acometidas centralizadoras dos muitos que, ao longo da história, julgaram o país como uma espécie de quintal das traseiras permanentemente disponível aos ditames das suas vontades dirigistas.

Agora, tudo parece diferente. O Porto não reage, não se reafirma. Pelo contrário - acomoda-se ao seu triste estado, deixa-se abater, acabrunhado e fatalista, mal governado, conduzido por quem não imagina soluções - infelizmente, tal como acontece com o país.
A decadência do Porto não começou com Rui Rio - mas é irrefutável que esse declínio se tem acentuado com a sua gestão que não provou qualquer engenho para o fazer cessar ou refrear.

Rio nunca apreendeu que quem governa o Porto tem de conduzir uma região. Na verdade, nem sequer se vê a si mesmo como um presidente da Câmara - ele é um simples gestor do município, mal acompanhado por um decepcionante elenco de vereadores, anónimos e anódinos, que estaria politicamente mais apropriado para constituir o executivo colegial de uma cidade menor. Após a saída de Paulo Morais nunca mais ali ninguém alvitrou uma ideia ou ensaiou um esforço de diferença na administração dos interesses locais: perdido o conteúdo ético de Paulo Morais, a Câmara de Rio decaiu para os níveis de honestidade e transparência semelhantes aos dos socialistas que lá estavam antes. Aliás, algumas das suas decisões urbanísticas só não foram refutadas devido ao já proverbial mau funcionamento da Justiça.

Ganhando as eleições por falta de comparência, Rio resignou-se a gerir sem estratégia uma cidade carcomida pela desesperança em si mesma. Do Porto, fogem os mais jovens para construírem as suas vidas noutros lugares, tornando a cidade avelhentada e sem ânimo. Evidencia-se o falhanço da SRU na reabilitação da Baixa, que era, afinal, a sua grande jura eleitoral.

Rio mistura uma insípida administração com predilecções pessoais - detesta futebol, logo varreu o desporto-rei das preocupações do município; não percebe a cultura, donde invectiva-a e mascara essa insegurança com rigores orçamentais. Mas esses sisudos critérios são esquecidos quando o tema lhe é agradável - como Rio gosta de carros e de aviõezinhos, automaticamente o Porto travestiu-se em organizador de circuitos, "road shows" e "air races", não fazendo caso dos milhões de euros de prejuízos acumulados…

Rio já não tem qualquer projecto político para o Porto. Voltou a transformar a Autarquia naquilo em que esta consistia nos tempos da liderança socialista: dócil perante os empreiteiros, prenhe da política-espectáculo que nunca deixa lastro e fica longe dos princípios que tanto alardeou - não por acaso, o declínio do Porto tem uma intensa conexão com o de Portugal.

Este é um Rio que seca tudo à sua volta. A desilusão em que se tornou é atestada pela falta de sequência do seu suposto projecto político - no árido séquito que o acolita, não há um só continuador plausível. Quando este Rio desaguar, finalmente, em Lisboa, a preocupação de quem lhe suceder será a de negar e fazer esquecer os anos antecedentes: os da redução da presidência do Porto a uma gestão seca e infecunda, da estagnação volitiva, da negação da ideia do Porto e de tudo o que sempre fez a sua diferença.

|CAA|

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